
É aquele o meu esconderijo, o lugar perfeito para me desinibir de todos os entraves que faço questão de colocar todos os dias, na minha vida. Ali, aquela leve brisa é capaz de me tocar, mesmo que seja ao de leve, eu consigo senti-la. Ali, quem sou eu? Numa profunda introspecção do meu ser, sou apanhada e levada por sentimentos bons e maus, de tamanha dimensão, que outrora não conseguiam alcançar o meu coração frio, diria melhor, gelado, servindo de uma camada, não o suficientemente espessa, para cobrir as azáfamas da monotonia do dia a dia. E foi lá, que eu senti os mais estranhos pressentimentos, aqueles que corroem até ao fim, sem restar simplesmente nada. Vi aquela água tão clara, límpida, transparente e indolor, que depressa se tornou estranhamente escura, suja, com um cheiro desagradável a barro, causado pelas inúmeras tempestades. Aquela água que escorria, deslizando ao mesmo tempo que limpava a sujidade que por ali se fixou; mas não conseguindo limpar a tristeza da perda, a tristeza da incapacidade, que residia nos olhos dela. Sob o efeito de pressão a que aquele local nos obriga, vi ali exposto um turbilhão de sentimentos e de pensamentos que se apoderavam do meu corpo, frágil e da minha consciência estagnada. Eis que surgiu aquela afirmação, que num momento de maior sobriedade e noutro local, eu diria mesmo, que era a afirmação mais esquisita que ouvira. ‘’Aquela pedra castanha é bonita’’. Num local onde a melancolia está presente em todos os recantos, onde tudo transmite um significado atordoador de paz em conjunto com a insignificância e tristeza, ali eu percebi. Se ‘’em terra’’ não conseguimos tornar-nos iguais, ali, tudo é igual, todos somos iguais uns aos outros, Ali, pois, não há diferenças, obtemos todos o mesmo significado. E forçosamente vi-me obrigada a contrapor aquela afirmação, numa frase breve, curta, mas compreensível, disse: ''Aqui nada é bonito''. O silêncio fixou-se no ar. E então, dei razão a mim mesma, ali é tudo tão igual, o bonito é algo que não paira naquele sítio, ali tudo é horrivel.
Diria então, que a minha ingenuidade foi posta, mais uma vez, à prova, e mesmo assim, não consegui livrar-me dela, ela acompanha-me para onde quer que eu vá. Medo, talvez de querer acreditar que tudo é tão delinear como dizem.
No passado, ainda recordo os mesmos desenhos, representando os mesmos sonhos e desejos, a mesma fragilidade e inocência; aqueles desenhos com um monte verdejante, cheio de flores, uma casa com uma chaminé a fumegar, duas árvores, as nuvens e o sol sorridente e radioso; eu, os meus pais e o meu irmão, todos sorridentes e de mão dada.
Sim, agora acredito, é lá que eu permaneço com os pés bem assentes na terra, e involuntariamente, como se de uma força superior se tratasse, reconheço a minha miragem feita pelo reflexo da lua na água clara, ali, visiono pormenorizadamente todos os traços da minha sombra, e sem querer vou-me reconhecendo. Ali sei quem realmente sou.
Sou aquela menina que, se dantes fazia parte daqueles desenhos, hoje, vê-se completamente sozinha neles, Os desenhos não mudaram, quem mudou fui eu, a realidade que me rodeia obriga-me a abstrair-me da fantasia. A fantasia que eu própria afastei de mim, a fantasia que me obrigou a conviver com a obscuridade do vazio, sem sentimentos.
Completamente sozinha.

Sinto uma tristeza



















