19 setembro 2006

Quero-me de volta...


Saí de casa com o friozinho na barriga, tinha medo das reacções de toda a gente, tinha medo de como seria encarar a tal diferença a que eu não me sujeitei, mas que sem querer fui arrastada por ela. Entrei, sem dar-me conta que já lá estava e nada podia fazer; tive a sensação estranha de não conhecer ninguém, sentia-me uma autêntica intrusa. A manhã estava a corresponder ás minhas expectativas, as apresentações habituais, o ‘’julgar ’’ aqueles que nem conhecemos, as palavras como ‘’matéria’’, testes, a entoarem tão mal ao meu ouvido, os cadernos por estriar, a caneta que faz doer as mãos de escrever meia dúzia de palavras, a letra feia e destreinada, o calor a esturricar-nos os miolos, os sorrisos cínicos dos professores que fazem-nos acreditar que o ano vai ser um mar de rosas. Nos intervalos, os olhares atentos postos naqueles que são novos na escola, as conversas de sempre à volta daquela mesa redonda. E assim vai ser o resto do ano, até que nos rendemos à monotonia e ao cansaço e já não temos nem tempo, nem paciência para nada. O que não esperava, foi que algumas das atenções, foram viradas para mim. Que mal é que tem a mudança? Para melhor ou pior, é igual, então a nível físico, será que ninguém entende, que por muito que eu mude de aspecto, que vou ser sempre a mesma pessoa, se calhar com outra maneira de pensar, com qualidades ou defeitos adquiridos, mas sempre a mesma pessoa. Odeio aqueles sorrisos e elogios que por muito sinceros que sejam, soam-me sempre a falsidade e a cinismo. Ser o centro das atenções, nunca foi um objectivo meu, nem por um minuto, quanto mais num dia.Sou assim, não gosto e pronto. Porquê? Tenho culpa? Já começo a ter saudades de estar no meu ‘’mundinho’’ sozinha, a pensar na realidade e ao mesmo tempo a fantasiar, onde passava despercebida, onde era transparente e onde ninguém me podia tocar, nem fixar o seu olhar penetrante.
Gosto muito da insignificância do meu ser, por favor não ma tentem roubar.
Tempo, devolve-me o meu espectro.

Enfim um desabafo quanto muito, descabido.


No geral gostei do início das aulas, no entanto, iguais a todos os outros anos; mas gostei de ver a minhas meninas que já não via, assim, há muito tempo.

Um comentário:

Sebastiana de Lemos disse...

Percebo o que queres dizer. E gostava que soubesses, que quando disse que estavas linda, disse-o com todo a sinceridade do meu ser, sem qualquer falsidade. Se não o achasse, guardava essa opinião para comigo, e da minha boa não ouvirias uma palavra. Percebo que gostes de ser transparente... eu também amo a minha invisibilidade, tenho-a e ninguém ma vai tirar... assim como ninguém te vai tirar a tua transparência de espirito. És uma corajosa sabes porquê? Porque tiveste a coragem de mudar alguma coisa em ti. Mudar não significa "querer dar nas vistas", mas sim, ter coragem para nos mostrar-mos a este mundo, cheio de má lingua, que tivemos coragem para o fazer.

Estás linda, não me canso de o dizer, nem eu, nem toda a gente, mas não te preocupes, percebo que te sentes mal, por isso, não o direi mais. Há e mais uma coisa... achas que as pessoas são falsas quando dizem que estás bonita, porque não tens coragem para admitir para ti mesma que o estás. Luta contra isso.

Um beijo
Patricia