Vasculho frivolamente por de entre os mil pedaços de rascunhas inacabados, os quais entulham gavetas e compartimentos, cantos e recantos, não deixando espaço para que a poeira se acomode refastelada. E num irremediável suspiro de pôr término a qualquer um deles, remexo, retoco, risco e por fim rasgo, tentando recompor cada compasso estilhaçado, onde porém somente resta o desalento de não mais me identificar com algum daqueles escritos insonoros. Defronte de tais riscos e rabiscos mudos e inapagáveis, em que os mesmos desesperam fatigantes por se materializar, paira uma espinha dorsal moribunda e enviesada, a qual se rasteja entorpecidamente na diletante esperança de contornar a sua passividade motora. De rompante, na súbita lucidez dos sentidos, busca laivos de estímulo, a fim de erguer a imobilidade da sua pesada estrutura contorcida. Em vão. Urgindo aninhada na cómoda incredulidade, arrasta o seu abstencionismo desnutrido, vagueia na eloquência de uma dança rodopiante, pelo que segundos depois, já sem fôlego, sacode, expelindo a lixeira que cobrira o solo onde embate ferozmente atordoada. Momentos volvidos, num piso inóspito expõe a tenebrosa palidez que compõe toda a sua tez imaculada, vincada contudo por sórdidas brechas carnais. Dormentemente, enfrasca todo o seu engenho num invólucro amarrotado, aprimorando as extremidades, com o intento de afagar, abafando o seu venturoso infortúnio perante o qual se atém, estaticamente débil. Decalca com uma exactidão tal, sem embaraço de coordenação as fissuras de um solo árido e argiloso, que de quando em vez, na esterilidade translúcida de congeminação, se debate continuadamente sobre o bailado ininterrupto dos sobressaltos que lhe assaltam bruscamente a memória. Ei-lo:
Pudesse ela encher-se de coragem, tornava a vestir aquele tal vestido colorido de um preto exuberante e místico, e com isso indicaria o concluo de mais um capítulo. Tomara que conseguisse sequer imaginar-se com ele vestida, recordar-se-ia do quão se sentiu senhora do mundo. Ao invés, prefere mantê-lo incólume assim como ela, arrumado a um canto num local privilegiado do seu roupeiro, onde não possa encará-lo com frequência, detendo-o da tentativa de pôr a descoberto a sua fragilidade. Perdoem-lhe a frieza, mas por vezes admite ter uma súbita e inexplicável vontade de lhe atear fogo, enquanto poderia deleitar-se assistindo a ser consumido pelas labaredas. Mas tal acabaria por nada resolver, antes lhe avivaria a memória quando fosse confrontada com o espaço vazio que ele mesmo havia ocupado, no qual passava tão ternamente despercebido. Desejou incessantemente findar esta narrativa, aos tropeços e solavancos, apercebeu-se que já a rematara naquele dia, quando constatou estremecida que já não estava a seu lado, que afinal de contas nunca o tinha estado. E é por isso que te
assenta tão bem essa crueza
Destaca todos os teus traços de vaidade
Realça desmesuradamente a tua rudeza
Favorece clandestinamente tal sobriedade
Alonga esse teu toque de intransigência
Refina as tuas curvas de opacidade
Vinca a tua anatómica displicência
Delineia as tuas linhas de tenacidade
Ajusta os contornos de impaciência
Embeleza os teus raios de luminosidade
Ornamenta essa nudez de consciência
Disfarçando a tua crédula atomicidade,
Ficando desconcertante nessa cor desbotada
Camuflando as formas que denunciam imprudência
Aperfeiçoa aquilo que é uma postura fustigada
Espartilha as tuas súplicas de indulgência.
Embustes.
Em vão.
04 julho 2010
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