04 julho 2010

(Re)Capitular

Vasculho frivolamente por de entre os mil pedaços de rascunhas inacabados, os quais entulham gavetas e compartimentos, cantos e recantos, não deixando espaço para que a poeira se acomode refastelada. E num irremediável suspiro de pôr término a qualquer um deles, remexo, retoco, risco e por fim rasgo, tentando recompor cada compasso estilhaçado, onde porém somente resta o desalento de não mais me identificar com algum daqueles escritos insonoros. Defronte de tais riscos e rabiscos mudos e inapagáveis, em que os mesmos desesperam fatigantes por se materializar, paira uma espinha dorsal moribunda e enviesada, a qual se rasteja entorpecidamente na diletante esperança de contornar a sua passividade motora. De rompante, na súbita lucidez dos sentidos, busca laivos de estímulo, a fim de erguer a imobilidade da sua pesada estrutura contorcida. Em vão. Urgindo aninhada na cómoda incredulidade, arrasta o seu abstencionismo desnutrido, vagueia na eloquência de uma dança rodopiante, pelo que segundos depois, já sem fôlego, sacode, expelindo a lixeira que cobrira o solo onde embate ferozmente atordoada. Momentos volvidos, num piso inóspito expõe a tenebrosa palidez que compõe toda a sua tez imaculada, vincada contudo por sórdidas brechas carnais. Dormentemente, enfrasca todo o seu engenho num invólucro amarrotado, aprimorando as extremidades, com o intento de afagar, abafando o seu venturoso infortúnio perante o qual se atém, estaticamente débil. Decalca com uma exactidão tal, sem embaraço de coordenação as fissuras de um solo árido e argiloso, que de quando em vez, na esterilidade translúcida de congeminação, se debate continuadamente sobre o bailado ininterrupto dos sobressaltos que lhe assaltam bruscamente a memória. Ei-lo:
Pudesse ela encher-se de coragem, tornava a vestir aquele tal vestido colorido de um preto exuberante e místico, e com isso indicaria o concluo de mais um capítulo. Tomara que conseguisse sequer imaginar-se com ele vestida, recordar-se-ia do quão se sentiu senhora do mundo. Ao invés, prefere mantê-lo incólume assim como ela, arrumado a um canto num local privilegiado do seu roupeiro, onde não possa encará-lo com frequência, detendo-o da tentativa de pôr a descoberto a sua fragilidade. Perdoem-lhe a frieza, mas por vezes admite ter uma súbita e inexplicável vontade de lhe atear fogo, enquanto poderia deleitar-se assistindo a ser consumido pelas labaredas. Mas tal acabaria por nada resolver, antes lhe avivaria a memória quando fosse confrontada com o espaço vazio que ele mesmo havia ocupado, no qual passava tão ternamente despercebido. Desejou incessantemente findar esta narrativa, aos tropeços e solavancos, apercebeu-se que já a rematara naquele dia, quando constatou estremecida que já não estava a seu lado, que afinal de contas nunca o tinha estado. E é por isso que te
assenta tão bem essa crueza

Destaca todos os teus traços de vaidade
Realça desmesuradamente a tua rudeza
Favorece clandestinamente tal sobriedade
Alonga esse teu toque de intransigência
Refina as tuas curvas de opacidade
Vinca a tua anatómica displicência
Delineia as tuas linhas de tenacidade
Ajusta os contornos de impaciência
Embeleza os teus raios de luminosidade
Ornamenta essa nudez de consciência
Disfarçando a tua crédula atomicidade,
Ficando desconcertante nessa cor desbotada
Camuflando as formas que denunciam imprudência
Aperfeiçoa aquilo que é uma postura fustigada
Espartilha as tuas súplicas de indulgência.


Embustes.
Em vão.

09 março 2010

(Des)Complicar


Há dias em que me perco a divagar
Há vezes que te sinto sem te tocar
Há momentos em que me encontro nesse olhar
Há palavras que me dizes sem falar.
Há minutos que me acompanha o teu respirar
Há segundos que me fazem sufocar
Há coisas que ouço sem escutar
Há verdades incapazes de camuflar.
Há renúncias,
Há indiferenças
passíveis de aceitar
Há denúncias,
Há crenças
difíceis de apagar.
Há vazios prestes a preencher
Há promessas que se fazem sem querer
Há pessoas impossíveis de esquecer
Há alturas em que é preciso ceder.
Há motivos que me fazem relembrar
Há esperanças que me impelem a renascer
Há deslumbre quando posso errar
Há lembranças que não quero perder
Há um egoísmo que me faz arrepiar
Há queixume não te poder ter.
Há imagens que insistes ludibriar
Há pensamentos que teimas evitar
Há silêncios que queres prolongar
Há ausências que não ousas quebrar.
Há verbos insusceptíveis de conjugar
Há atitudes que preferes dissimular
Há desejos impassíveis de controlar
Há razão ou temor em arriscar?
Há sede,
Há impulsos que nos dão de beber
Há pulsar,
Há ouvir corações a bater
Há compassos que deveria esconder
Há mensagens que o tempo fará desaparecer
Há corpos quentes, latentes
Amanhã,
Haverá corpos a arrefecer.
Há personagens que jamais poderei encarnar,
Muito menos ser
Há passagens que mais vale inverter
Nunca mais lá voltar.
Há que conter
Há que acalmar
Há que prever
Há que dissipar
Há que esbater
Há que encontrar
Há que desvanecer
Há que silenciar
Há que responder
Há um beijo por abafar
Há que morder
Há que parar
Há que cerrar
Há que morrer
nos teus braços,
deixar-me adormecer e
não mais acordar,
Ficar.

18 janeiro 2010

(In)Quietude


R de reverência, razão, rebeldia
Que se frustra num sono leve
Emaranhado em poesia,
Que se ofusca num embate e pede
Acalento e maresia
Da imensa e tamanha plebe
Que se afunda em heresia.

De um troço destroçado emerge
Um grito de euforia,
Que se esbate ansioso e bebe
Um trago de ironia,
Amarrotado, aclama e segue
Na melódica sinfonia,
Que abafada, ao silêncio entregue
Repousa em agonia.

Sentir que não sentia, aquece
Rir do que não ria, entristece,
Que insónia maldita seria
Ao dormitar num leito
Onde tudo se refazia
Enlouquece.

Cedo amanhece,
Trazendo o sol que erradia,
Humedece a magia
Com palavras vãs em simetria,
Oxalá não trouxesse, antes anuncia
Insensatez,
Um ímpeto de oligarquia,
Talvez tivesse.

Corpo que arrefece e renuncia
Adormece na hipotermia
De uma alma que cede
Extasiada na mentira
Implorando clemência, recebe
Em troca asfixia
Que amordaça e silencia
Preces que tece em harmónica
Nostalgia.

Era assim que me queria,
Parece
Hipocrisia
Anoitece o iminente dia.
Vera Monteiro
17 de Janeiro de 2010, entre as 2.25h da manhã e as 2.53h, apeteceu-me saborear um registo que nunca havia experimentado, um registo bem diferente, que foge, em tudo, à regra. Resultou, é certo, da ansiedade, da insónia, da confusão, mas serviu para me apaziguar. Não me revejo na poesia, não visto o título de escritora, muito menos o de poeta, mas gostei da experiência que me despertou o sonambulismo.