assoma-se à porta dianteira
E sem mais nem porquês,
Feita trepadeira, insurge-se matreira
Não aguardando a sua vez.
Com requinte de malvadez
Interesseira, tão insípida de prudência
Desprovida de sensatez
Desboca em maledicência e mesquinhez.
Espreitando pela janela
Coloca-se de sentinela,
Corrói o soalho encerado
Enfurece a dança de um candelabro
Abrilhantado e ofuscante
Docilmente baloiçante,
Fazendo estremecer a moribunda estante
Estilhaçando o espelho emproado,
Pobre coitado, ao ser quebrado.
Inoportuna,
Ascende, empertigada à tribuna
Irrompe em assaz tumulto,
Eleva a voz em sinal de luto,
Expelindo a poeira acumulada
Que jazia amedrontada
Deixando-a destroçada,
Quando outrora repousara imaculada.
Despe a cal que vestira o mural,
Coloca-se no pedestal em vaidade tal,
E tresloucada, instala-se levianamente
Alterando a disposição inalterada
Postumamente aprimorada,
Refastela-se na espreguiçadeira
Atraindo a lixeira, depositada à entrada traseira.
Ei-la, desventura amistosa
Que ressurge fatalmente,
Rodopia numa espiral viva,
Na esteira envolvente,
De uma rispidez dormente,
Tenebrosa de quão altiva,
Tão culta, mas tão pouco se cultiva,
Adormece enquanto esquece,
Que de astuta se tornou cativa.
28 fevereiro 2011
04 julho 2010
(Re)Capitular
Vasculho frivolamente por de entre os mil pedaços de rascunhas inacabados, os quais entulham gavetas e compartimentos, cantos e recantos, não deixando espaço para que a poeira se acomode refastelada. E num irremediável suspiro de pôr término a qualquer um deles, remexo, retoco, risco e por fim rasgo, tentando recompor cada compasso estilhaçado, onde porém somente resta o desalento de não mais me identificar com algum daqueles escritos insonoros. Defronte de tais riscos e rabiscos mudos e inapagáveis, em que os mesmos desesperam fatigantes por se materializar, paira uma espinha dorsal moribunda e enviesada, a qual se rasteja entorpecidamente na diletante esperança de contornar a sua passividade motora. De rompante, na súbita lucidez dos sentidos, busca laivos de estímulo, a fim de erguer a imobilidade da sua pesada estrutura contorcida. Em vão. Urgindo aninhada na cómoda incredulidade, arrasta o seu abstencionismo desnutrido, vagueia na eloquência de uma dança rodopiante, pelo que segundos depois, já sem fôlego, sacode, expelindo a lixeira que cobrira o solo onde embate ferozmente atordoada. Momentos volvidos, num piso inóspito expõe a tenebrosa palidez que compõe toda a sua tez imaculada, vincada contudo por sórdidas brechas carnais. Dormentemente, enfrasca todo o seu engenho num invólucro amarrotado, aprimorando as extremidades, com o intento de afagar, abafando o seu venturoso infortúnio perante o qual se atém, estaticamente débil. Decalca com uma exactidão tal, sem embaraço de coordenação as fissuras de um solo árido e argiloso, que de quando em vez, na esterilidade translúcida de congeminação, se debate continuadamente sobre o bailado ininterrupto dos sobressaltos que lhe assaltam bruscamente a memória. Ei-lo:
Pudesse ela encher-se de coragem, tornava a vestir aquele tal vestido colorido de um preto exuberante e místico, e com isso indicaria o concluo de mais um capítulo. Tomara que conseguisse sequer imaginar-se com ele vestida, recordar-se-ia do quão se sentiu senhora do mundo. Ao invés, prefere mantê-lo incólume assim como ela, arrumado a um canto num local privilegiado do seu roupeiro, onde não possa encará-lo com frequência, detendo-o da tentativa de pôr a descoberto a sua fragilidade. Perdoem-lhe a frieza, mas por vezes admite ter uma súbita e inexplicável vontade de lhe atear fogo, enquanto poderia deleitar-se assistindo a ser consumido pelas labaredas. Mas tal acabaria por nada resolver, antes lhe avivaria a memória quando fosse confrontada com o espaço vazio que ele mesmo havia ocupado, no qual passava tão ternamente despercebido. Desejou incessantemente findar esta narrativa, aos tropeços e solavancos, apercebeu-se que já a rematara naquele dia, quando constatou estremecida que já não estava a seu lado, que afinal de contas nunca o tinha estado. E é por isso que te
assenta tão bem essa crueza
Destaca todos os teus traços de vaidade
Realça desmesuradamente a tua rudeza
Favorece clandestinamente tal sobriedade
Alonga esse teu toque de intransigência
Refina as tuas curvas de opacidade
Vinca a tua anatómica displicência
Delineia as tuas linhas de tenacidade
Ajusta os contornos de impaciência
Embeleza os teus raios de luminosidade
Ornamenta essa nudez de consciência
Disfarçando a tua crédula atomicidade,
Ficando desconcertante nessa cor desbotada
Camuflando as formas que denunciam imprudência
Aperfeiçoa aquilo que é uma postura fustigada
Espartilha as tuas súplicas de indulgência.
Embustes.
Em vão.
Pudesse ela encher-se de coragem, tornava a vestir aquele tal vestido colorido de um preto exuberante e místico, e com isso indicaria o concluo de mais um capítulo. Tomara que conseguisse sequer imaginar-se com ele vestida, recordar-se-ia do quão se sentiu senhora do mundo. Ao invés, prefere mantê-lo incólume assim como ela, arrumado a um canto num local privilegiado do seu roupeiro, onde não possa encará-lo com frequência, detendo-o da tentativa de pôr a descoberto a sua fragilidade. Perdoem-lhe a frieza, mas por vezes admite ter uma súbita e inexplicável vontade de lhe atear fogo, enquanto poderia deleitar-se assistindo a ser consumido pelas labaredas. Mas tal acabaria por nada resolver, antes lhe avivaria a memória quando fosse confrontada com o espaço vazio que ele mesmo havia ocupado, no qual passava tão ternamente despercebido. Desejou incessantemente findar esta narrativa, aos tropeços e solavancos, apercebeu-se que já a rematara naquele dia, quando constatou estremecida que já não estava a seu lado, que afinal de contas nunca o tinha estado. E é por isso que te
assenta tão bem essa crueza
Destaca todos os teus traços de vaidade
Realça desmesuradamente a tua rudeza
Favorece clandestinamente tal sobriedade
Alonga esse teu toque de intransigência
Refina as tuas curvas de opacidade
Vinca a tua anatómica displicência
Delineia as tuas linhas de tenacidade
Ajusta os contornos de impaciência
Embeleza os teus raios de luminosidade
Ornamenta essa nudez de consciência
Disfarçando a tua crédula atomicidade,
Ficando desconcertante nessa cor desbotada
Camuflando as formas que denunciam imprudência
Aperfeiçoa aquilo que é uma postura fustigada
Espartilha as tuas súplicas de indulgência.
Embustes.
Em vão.
09 março 2010
(Des)Complicar

Há dias em que me perco a divagar
Há vezes que te sinto sem te tocar
Há momentos em que me encontro nesse olhar
Há palavras que me dizes sem falar.
Há minutos que me acompanha o teu respirar
Há segundos que me fazem sufocar
Há coisas que ouço sem escutar
Há verdades incapazes de camuflar.
Há renúncias,
Há indiferenças
passíveis de aceitar
Há denúncias,
Há crenças
difíceis de apagar.
Há vazios prestes a preencher
Há promessas que se fazem sem querer
Há pessoas impossíveis de esquecer
Há alturas em que é preciso ceder.
Há motivos que me fazem relembrar
Há esperanças que me impelem a renascer
Há deslumbre quando posso errar
Há lembranças que não quero perder
Há um egoísmo que me faz arrepiar
Há queixume não te poder ter.
Há imagens que insistes ludibriar
Há pensamentos que teimas evitar
Há silêncios que queres prolongar
Há ausências que não ousas quebrar.
Há verbos insusceptíveis de conjugar
Há atitudes que preferes dissimular
Há desejos impassíveis de controlar
Há razão ou temor em arriscar?
Há sede,
Há impulsos que nos dão de beber
Há pulsar,
Há ouvir corações a bater
Há compassos que deveria esconder
Há mensagens que o tempo fará desaparecer
Há corpos quentes, latentes
Amanhã,
Haverá corpos a arrefecer.
Há personagens que jamais poderei encarnar,
Muito menos ser
Há passagens que mais vale inverter
Nunca mais lá voltar.
Há que conter
Há que acalmar
Há que prever
Há que dissipar
Há que esbater
Há que encontrar
Há que desvanecer
Há que silenciar
Há que responder
Há um beijo por abafar
Há que morder
Há vezes que te sinto sem te tocar
Há momentos em que me encontro nesse olhar
Há palavras que me dizes sem falar.
Há minutos que me acompanha o teu respirar
Há segundos que me fazem sufocar
Há coisas que ouço sem escutar
Há verdades incapazes de camuflar.
Há renúncias,
Há indiferenças
passíveis de aceitar
Há denúncias,
Há crenças
difíceis de apagar.
Há vazios prestes a preencher
Há promessas que se fazem sem querer
Há pessoas impossíveis de esquecer
Há alturas em que é preciso ceder.
Há motivos que me fazem relembrar
Há esperanças que me impelem a renascer
Há deslumbre quando posso errar
Há lembranças que não quero perder
Há um egoísmo que me faz arrepiar
Há queixume não te poder ter.
Há imagens que insistes ludibriar
Há pensamentos que teimas evitar
Há silêncios que queres prolongar
Há ausências que não ousas quebrar.
Há verbos insusceptíveis de conjugar
Há atitudes que preferes dissimular
Há desejos impassíveis de controlar
Há razão ou temor em arriscar?
Há sede,
Há impulsos que nos dão de beber
Há pulsar,
Há ouvir corações a bater
Há compassos que deveria esconder
Há mensagens que o tempo fará desaparecer
Há corpos quentes, latentes
Amanhã,
Haverá corpos a arrefecer.
Há personagens que jamais poderei encarnar,
Muito menos ser
Há passagens que mais vale inverter
Nunca mais lá voltar.
Há que conter
Há que acalmar
Há que prever
Há que dissipar
Há que esbater
Há que encontrar
Há que desvanecer
Há que silenciar
Há que responder
Há um beijo por abafar
Há que morder
Há que parar
Há que cerrar
Há que morrer
nos teus braços,
deixar-me adormecer e
não mais acordar,
Ficar.
Há que cerrar
Há que morrer
nos teus braços,
deixar-me adormecer e
não mais acordar,
Ficar.
18 janeiro 2010
(In)Quietude

R de reverência, razão, rebeldia
Que se frustra num sono leve
Emaranhado em poesia,
Que se ofusca num embate e pede
Acalento e maresia
Da imensa e tamanha plebe
Que se afunda em heresia.
De um troço destroçado emerge
Um grito de euforia,
Que se esbate ansioso e bebe
Um trago de ironia,
Amarrotado, aclama e segue
Na melódica sinfonia,
Que abafada, ao silêncio entregue
Repousa em agonia.
Sentir que não sentia, aquece
Rir do que não ria, entristece,
Que insónia maldita seria
Ao dormitar num leito
Onde tudo se refazia
Enlouquece.
Cedo amanhece,
Trazendo o sol que erradia,
Humedece a magia
Com palavras vãs em simetria,
Oxalá não trouxesse, antes anuncia
Insensatez,
Um ímpeto de oligarquia,
Talvez tivesse.
Corpo que arrefece e renuncia
Adormece na hipotermia
De uma alma que cede
Extasiada na mentira
Implorando clemência, recebe
Em troca asfixia
Que amordaça e silencia
Preces que tece em harmónica
Nostalgia.
Que se frustra num sono leve
Emaranhado em poesia,
Que se ofusca num embate e pede
Acalento e maresia
Da imensa e tamanha plebe
Que se afunda em heresia.
De um troço destroçado emerge
Um grito de euforia,
Que se esbate ansioso e bebe
Um trago de ironia,
Amarrotado, aclama e segue
Na melódica sinfonia,
Que abafada, ao silêncio entregue
Repousa em agonia.
Sentir que não sentia, aquece
Rir do que não ria, entristece,
Que insónia maldita seria
Ao dormitar num leito
Onde tudo se refazia
Enlouquece.
Cedo amanhece,
Trazendo o sol que erradia,
Humedece a magia
Com palavras vãs em simetria,
Oxalá não trouxesse, antes anuncia
Insensatez,
Um ímpeto de oligarquia,
Talvez tivesse.
Corpo que arrefece e renuncia
Adormece na hipotermia
De uma alma que cede
Extasiada na mentira
Implorando clemência, recebe
Em troca asfixia
Que amordaça e silencia
Preces que tece em harmónica
Nostalgia.
Era assim que me queria,
Parece
Hipocrisia
Anoitece o iminente dia.
Vera Monteiro
17 de Janeiro de 2010, entre as 2.25h da manhã e as 2.53h, apeteceu-me saborear um registo que nunca havia experimentado, um registo bem diferente, que foge, em tudo, à regra. Resultou, é certo, da ansiedade, da insónia, da confusão, mas serviu para me apaziguar. Não me revejo na poesia, não visto o título de escritora, muito menos o de poeta, mas gostei da experiência que me despertou o sonambulismo.
06 dezembro 2009
“O temor determinista, o paladar do conformismo”

A cada passo adiante, note-se, num terreno lamacento, ou melhor dizendo, em areias movediças, apago com certa destreza o caminho outrora prosseguido num planalto floreado, rodeado de natureza sibilante.
Com franqueza reconheço o trago amargo do abstencionismo mental, cuja passividade monocórdica embala ritmicamente qualquer espectro de sonambulismo, cuja descoordenação físico – mental é tão patente como de abominável.
Defronte, um jogo de palavras desconexo, descontroladamente impulsivo e atroz, o qual se revê numa hipocrisia de circunstância, de conveniência deliberada.
Fatigante é a audácia de uma perplexidade sem contornos de sanidade, ao deixar réstias de ilusionismos, malabarismos, truques de malvadez, os quais se desvanecem numa fracção suspirante, pestanejante, esfusiante de um diafragma debilitado.
Resta apenas um corpo que se debate numa auto flagelação, que se contorce em vão, aguardando a euforia pós catártica, a qual consola, preenche os vasos sanguíneos ressequidos, sara os golpes desferidos, mediante a improcedência de actos embebidos de fracasso, de uma impotência, incapacidade cintilantes.
Passos dados em falso, identificados com uma leveza do ser, no âmago de uma inocência indescritivelmente falaciosa, notória, indiscutivelmente falível, enquanto se esvaia a intensidade do fôlego, momentânea e fugaz que não quererás certamente saborear, fazendo jus ao legado que havias combatido, que tão forçosa e esforçadamente arredaste, jazendo até há bem pouco tempo naquela preciosa sepultura que tiveste a ousadia de profanar, desenterrando o que mais simboliza aquele teu erro crasso.
Quantas mais vezes terás tu de te fascinar, iludindo-te, caindo no embuste resplandecente, o qual ao te encandear faz de ti uma boneca de trapos facilmente maleável, devassada, constituída por partículas apetecivelmente desmembráveis, fraccionadas. Fazes questão de baralhá-las com uma proeza tal, que não mais verás interligadas como se de um puzzle de peças soltas se tratasse. Não mais serás um todo homogéneo.
Saudosista, irrealista, ingénua serei ao admitir que anseio pelo reencontrar de um passado que jamais voltará a ser o teu, um pretérito mais que perfeito que é totalmente afrontado e renegado pelo indigno e imperfeito presente que encabeças.
Enquanto te limitas a ser reconduzida numa envolvente disfunção procedimental, numa sequência premeditada de atitudes sôfregas e disléxicas.
Quero rever-te a protagonizar a completude daquele papel com o qual te reconheces na sua própria simetria, delicadeza, o qual desempenhas com tamanha devoção, no âmbito de uma fluidez discursiva sem precedentes, assente num raciocínio mecanicista, automático desprovido da mais ténue sensibilidade. É certo que te aconchega, acalentando-te o espírito, mas simultaneamente consome, suga, alimenta-se da suculenta e condimentada racionalidade empírica, de captação e absorção selectiva do meio que te circunda. E aos poucos, na demência da tua alma cativa num físico dormentemente sedado, que te obstrui e sufoca, mal te apercebes do quão desfocada se vai tornando a tua imagem. Será inútil tentares reflectir-te num espelho, em virtude de não conseguires através do mesmo, preencheres o nítido fosso, as profundas mazelas ensanguentadas.
Acordaste sobressaltada. Não te atrevas a deixar-te adormecer novamente, poderás jamais despertar.
Desconstrói a muralha que te aprisiona, a estrutura que almejou o teu suor, e volta somente a reconstrui-la aquando do erguer da tua insegurança. É aí que me abraças, apertando-me destrutivamente, esperando eu, que à mínima oportunidade me libertes e que ao desprender-me das demais imperiosas amarras sinta atirares-me para o tão tenebroso asfalto. A dor da queda, essa, nem sequer chego a experimentá-la. Senti-la-ei apenas ao dormitar sob o ardor da avidez pela qual me deixei embevecer.
De entre retoques, arranjos, assertos e amparos perfeccionistas e desconcertantes, vais brincando aos jogos de amnésia, esquecendo, marginalizando a menina que vingara na vitoriosa chegada, regredindo, ao vestires sem pejo algum, a pele do vulto que iniciara a partida, espectro esse que se desfaz, coabitando a paredes meias com a amargura do teu involuntarismo tangente.
Arrepelo-me e arrepio-me ao assistir à sinfonia monótona da tua avassaladora inconsciência, caindo no assassínio de uma confiança cegamente legítima, porém tudo menos meritória.
Atrever-me-ei a dizer-te com toda a crua frieza definitória do meu carácter, sem qualquer piedade ou complacência, que desmoronaste os alicerces equilibradores da tua inconsistência pendular, tonteando-te, à medida que te destróis enternecidamente sem disso te dares conta.
Com franqueza reconheço o trago amargo do abstencionismo mental, cuja passividade monocórdica embala ritmicamente qualquer espectro de sonambulismo, cuja descoordenação físico – mental é tão patente como de abominável.
Defronte, um jogo de palavras desconexo, descontroladamente impulsivo e atroz, o qual se revê numa hipocrisia de circunstância, de conveniência deliberada.
Fatigante é a audácia de uma perplexidade sem contornos de sanidade, ao deixar réstias de ilusionismos, malabarismos, truques de malvadez, os quais se desvanecem numa fracção suspirante, pestanejante, esfusiante de um diafragma debilitado.
Resta apenas um corpo que se debate numa auto flagelação, que se contorce em vão, aguardando a euforia pós catártica, a qual consola, preenche os vasos sanguíneos ressequidos, sara os golpes desferidos, mediante a improcedência de actos embebidos de fracasso, de uma impotência, incapacidade cintilantes.
Passos dados em falso, identificados com uma leveza do ser, no âmago de uma inocência indescritivelmente falaciosa, notória, indiscutivelmente falível, enquanto se esvaia a intensidade do fôlego, momentânea e fugaz que não quererás certamente saborear, fazendo jus ao legado que havias combatido, que tão forçosa e esforçadamente arredaste, jazendo até há bem pouco tempo naquela preciosa sepultura que tiveste a ousadia de profanar, desenterrando o que mais simboliza aquele teu erro crasso.
Quantas mais vezes terás tu de te fascinar, iludindo-te, caindo no embuste resplandecente, o qual ao te encandear faz de ti uma boneca de trapos facilmente maleável, devassada, constituída por partículas apetecivelmente desmembráveis, fraccionadas. Fazes questão de baralhá-las com uma proeza tal, que não mais verás interligadas como se de um puzzle de peças soltas se tratasse. Não mais serás um todo homogéneo.
Saudosista, irrealista, ingénua serei ao admitir que anseio pelo reencontrar de um passado que jamais voltará a ser o teu, um pretérito mais que perfeito que é totalmente afrontado e renegado pelo indigno e imperfeito presente que encabeças.
Enquanto te limitas a ser reconduzida numa envolvente disfunção procedimental, numa sequência premeditada de atitudes sôfregas e disléxicas.
Quero rever-te a protagonizar a completude daquele papel com o qual te reconheces na sua própria simetria, delicadeza, o qual desempenhas com tamanha devoção, no âmbito de uma fluidez discursiva sem precedentes, assente num raciocínio mecanicista, automático desprovido da mais ténue sensibilidade. É certo que te aconchega, acalentando-te o espírito, mas simultaneamente consome, suga, alimenta-se da suculenta e condimentada racionalidade empírica, de captação e absorção selectiva do meio que te circunda. E aos poucos, na demência da tua alma cativa num físico dormentemente sedado, que te obstrui e sufoca, mal te apercebes do quão desfocada se vai tornando a tua imagem. Será inútil tentares reflectir-te num espelho, em virtude de não conseguires através do mesmo, preencheres o nítido fosso, as profundas mazelas ensanguentadas.
Acordaste sobressaltada. Não te atrevas a deixar-te adormecer novamente, poderás jamais despertar.
Desconstrói a muralha que te aprisiona, a estrutura que almejou o teu suor, e volta somente a reconstrui-la aquando do erguer da tua insegurança. É aí que me abraças, apertando-me destrutivamente, esperando eu, que à mínima oportunidade me libertes e que ao desprender-me das demais imperiosas amarras sinta atirares-me para o tão tenebroso asfalto. A dor da queda, essa, nem sequer chego a experimentá-la. Senti-la-ei apenas ao dormitar sob o ardor da avidez pela qual me deixei embevecer.
De entre retoques, arranjos, assertos e amparos perfeccionistas e desconcertantes, vais brincando aos jogos de amnésia, esquecendo, marginalizando a menina que vingara na vitoriosa chegada, regredindo, ao vestires sem pejo algum, a pele do vulto que iniciara a partida, espectro esse que se desfaz, coabitando a paredes meias com a amargura do teu involuntarismo tangente.
Arrepelo-me e arrepio-me ao assistir à sinfonia monótona da tua avassaladora inconsciência, caindo no assassínio de uma confiança cegamente legítima, porém tudo menos meritória.
Atrever-me-ei a dizer-te com toda a crua frieza definitória do meu carácter, sem qualquer piedade ou complacência, que desmoronaste os alicerces equilibradores da tua inconsistência pendular, tonteando-te, à medida que te destróis enternecidamente sem disso te dares conta.
Findo isto, apercebo-me que basta de lamentações infundadas, provenientes de um semblante fatigado, o qual vagueando, foi de encontro à clausura de uma valsa de pensamentos amarrotados, deparando-se com o abalo do insucesso desprestigiante e calamitoso, decorrente da tentativa de encenar uma personagem que não mais voltará a encarnar.
Tenho saudades tuas, da tua intransigência ao não pactuares com desilusões. Sabendo que só tu podes contrariar o pendor irreflectido que culmina a passos largos para o estaticismo irremediável de uma alma penada.
Tenho saudades de mim.
Desespero à mercê de um hipnotismo atordoante e hipotético, estaria a redundar num eufemismo.
Vinga-te da vil cedência, cuja doçura apraz degustar, posteriormente atraiçoando-te constituindo um entrave de deglutição, penosa, estridentemente ruidosa, pondo término à altiva asfixia galopante com um suspiro insonoro, inaudível.
Procura-te, encontra-te e não mais te percas.
Encontrá-la-às votada à inércia de um mero observador que se submete ao estatuto de um insignificante figurante, assistindo impávida e serena ao desenrolar do rol de cenas despistadas, que compõem a peça que ela mesma realizou.
Palavras sonolentas, as quais se coadunam num mesmo ideal cíclico, obstruindo a junção coerente de qualquer raciocínio.
Já nem o peso dos vocábulos equaciono.
Não me reconheço, muito menos me revejo nesta arbitrariedade sequiosa de vagos conceitos que deambulam sem retorno.
Compassos de pequenez, tacteados na cegueira de gestos distorcidos sob coação.
Tenho saudades de mim.
Desespero à mercê de um hipnotismo atordoante e hipotético, estaria a redundar num eufemismo.
Vinga-te da vil cedência, cuja doçura apraz degustar, posteriormente atraiçoando-te constituindo um entrave de deglutição, penosa, estridentemente ruidosa, pondo término à altiva asfixia galopante com um suspiro insonoro, inaudível.
Procura-te, encontra-te e não mais te percas.
Encontrá-la-às votada à inércia de um mero observador que se submete ao estatuto de um insignificante figurante, assistindo impávida e serena ao desenrolar do rol de cenas despistadas, que compõem a peça que ela mesma realizou.
Palavras sonolentas, as quais se coadunam num mesmo ideal cíclico, obstruindo a junção coerente de qualquer raciocínio.
Já nem o peso dos vocábulos equaciono.
Não me reconheço, muito menos me revejo nesta arbitrariedade sequiosa de vagos conceitos que deambulam sem retorno.
Compassos de pequenez, tacteados na cegueira de gestos distorcidos sob coação.
Infrutiferamente procuras, sedenta de ti mesma, não haverá tempo a perder com tais lamúrias, enquanto teimares perder a vida nesse teu mundo de incerteza.
11 abril 2009
Confidências de um espírito contraproducente
Deparo-me num espaço desguarnecido onde os calafrios e o rubor se sentem com maior veemência, no qual as envaidecidas palavras palpitam freneticamente ao embalo de um discurso monossilábico. Conceitos indomáveis que jazem num arrependimento irremediável, proclamados em vão e carecidos de qualquer nexo. Raciocínios acompanhados de silogismos ilógicos e incoerentes, os quais culminam num impulso entusiasta.Eis a consciência assoladora do fracasso, da imensa pequenez que insiste em atulhar o ego com inconcebíveis quimeras que resultam em actos contraproducentes, explicitamente ridículos. É então que se rasga parte daquele espaço, abrindo-se uma fissura, um vazio ainda maior, mais fundo, constrangedor, perturbante, como de um bramido sufocado e amordaçado se tratasse, assim como da aridez de uma lágrima cativa que forçosamente teima não ser vertida, sob pena de exteriorização da fraqueza intrinsecamente perceptível, ao revelar o derrame sarado das fendas golpeadas, provocadas pelo trago amargo, pelo dissabor que apraz experimentar um devaneio apetecível.
Tais efeitos nefastos correspondem somente ao germinar corrosivo de um cultivo oco, num espaço onde a erosão devastou todo um ciclo reprodutor, ficando este estéril, reduzido a instantes intermináveis de demência, de inquietantes irracionalidades, devaneios, eloquências.
Um espaço oco, profundamente oco, no qual se ausculta uma ressonância estridente e de maneira ensurdecedora. O eco da minha atroz consciência, a fúria maquinal da razão, a qual tende a despertar única e tardiamente com o ferroar de umas unhas afiadas num corpo anestesiado, com as sucessivas atordoantes e penosas dores letais inferidas no músculo cerebral que se encontra obstruído pela cegueira da fadiga e da preguiça, típicas de um deleite ilusório, de um instinto predador, animalesco.
Já nem respeito tenho por mim própria, já não mereço aquilo que em tempos fui, a pessoa em que me tornei, a menina e mulher pela qual lutei. Desfigurei todo o esforço e confiança que nela havia depositado. Descaracterizei-a. Estou a matá-la aos poucos, ao envolvê-la naquele vazio que me entorpece os sentidos e que simultaneamente me encaminha ao asfalto.
Perdi-me num enredo fúnebre, cujas cinzas abreviaram a mera e ímpia insignificância da minha existência. Deixei-me órfã, frágil, desprovida de lucidez. Pobre alma que aclama amparo, aconchego e o alento de se deixar cair ligeiramente na clemência e acalento daquela estrutura físico – psíquica que a cativara, e que dela fizera sua cativa.
Talvez nunca me absolverei das desilusões que advenham de uma mente em estado vegetativo. Encarregar-me-ei de carregar para todo o sempre a cruz de ter antecipado cruelmente o óbito daquela menina.
Limito-me a deixar-me viver com o fardo de a ter deixado morrer precocemente.
Eis o desalento da sobriedade.
14 dezembro 2008
A quimera do sol de Agosto

O incontornável fim da ressurreição aproxima-se, e com ela levará o brotar de uma ingénua alma, que emana em si os imensos esforços canalizados que a intentaram recalcar.
Forças inúteis, infrutíferas, enfim, goradas, que ousaram impedir o ressurgimento da indomável inconsciência que assola constantemente a frieza e racionalidade, a que me habituara.
Fraca e triste natureza humana que ao deixar embalar-se pela doçura da arrogância, do egoísmo e da implacável insensibilidade de espírito, renuncia ao que se havia votado, incorporando porém, e ao invés, o débil espírito que cede ao mais meticuloso suspiro de liberdade, resignando-se à cobardia resplandecente de diminutos rasgos de luz intensa, os quais aquecem efemeramente as partes corpóreas, as quais de modo ilusório e ingenuamente a absorvem sem qualquer entrave.
Entristece-me ao discernir que regressei à insolvência desgrenhada das particularidades momentâneas e fugazmente intensas, dos olhares incrédulos e atordoantes que me teletransportam para um mundo utópico de absurdos devaneios, bloqueando o circuito de uma ilação coerente; dos risos e gritos estridentes; da ridicularidade dos infames pensamentos que me extasiam; da ternura dos gestos e da leveza das palavras. Sim, as tais que deveriam ser rudes e inflexíveis, ressequidas de qualquer piedade, destronando a doçura, a beleza reflexa de um sítio incógnito, inexistente, que ao desabar, fá-lo-á freneticamente, de modo a avassalar toda e qualquer delicada estrutura cobardemente serena.
Odeio ao mais ínfimo pormenor tudo o que se afigura, tudo o que se assemelha, tudo o que designa aquela menina imprudente que teimo reencarnar, sendo as nossas dissemelhanças abruptamente perceptíveis, pelo que cada vez mais é manifesta a maneira desajeitada com que desempenho o papel desta personagem redutível, com que jamais tornarei a identificar-me. Deixar-me ser eu, poder representar-me, é poder desamarrar as glândulas estéreis, esperneando-as, recitando cada sinfonia melódica que apraz em ensurdecer-me, ficando confinada à passiva cegueira da qual me regozijo, felicitando-a por me sentir isenta ao mortífero conceito afectivo que outrora me fizera sua cativa. Inequivocamente evoco imparcialidade perante a concepção identificada com a promiscuidade com que a banalidade instrumentaliza o seu cabal significado.
É curioso, voltei a desenhar, voltei a exprimir por palavras e por rabiscos curvilíneos o sentido, daquilo que, de facto não se poderá expressar de forma alguma!
Porém, ainda não findei a etapa narrada, terminando apenas quando ao enxugar as lágrimas, e ao expelir a pequenez dos contentamentos que me assaltam a mente, conseguir depreender o quão infeliz sou ao ser aquela menina que na realidade nela não me revejo.
Os destroços, as marcas, os rastos, os sinais, da menina petrificada e irradiante que se deixara enternecer pelo sol tórrido de Agosto, o qual a encadeara, despistando-a ao fazê-la cair num autêntico embuste, irão desvanecer-se, dando lugar à enevoada, embaciada e gélida atmosfera, que ao ampará-la, protege-a simultaneamente contra a exposição aos raios de um sol que a conduz cegamente à gradual fatalidade.
Audaz, o glorioso desfecho de uma perspicácia triunfante ao desprezar o “astro-rei”, cuja luminosidade dissimulada, intencionava impulsioná-la para um logro irremediavelmente incapacitante.
O infortúnio sol de Agosto suprido pela intempérie que caracteriza os meus majestosos dias.
Não mais irei tropeçar no intimismo de um monólogo fútil, exibicionista, extravagante, excêntrico, exorbitante, axiologicamente neutro que me entorpece os movimentos.
E deste modo, refuto avidamente a citação, que em tempos algemara o meu raciocínio mental ao tentar decifrá-la, a de que: “Uma vida lógica, não é vida”; e ao tentar infrutiferamente adequa-la à minha pessoa.
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