Deparo-me num espaço desguarnecido onde os calafrios e o rubor se sentem com maior veemência, no qual as envaidecidas palavras palpitam freneticamente ao embalo de um discurso monossilábico. Conceitos indomáveis que jazem num arrependimento irremediável, proclamados em vão e carecidos de qualquer nexo. Raciocínios acompanhados de silogismos ilógicos e incoerentes, os quais culminam num impulso entusiasta.Eis a consciência assoladora do fracasso, da imensa pequenez que insiste em atulhar o ego com inconcebíveis quimeras que resultam em actos contraproducentes, explicitamente ridículos. É então que se rasga parte daquele espaço, abrindo-se uma fissura, um vazio ainda maior, mais fundo, constrangedor, perturbante, como de um bramido sufocado e amordaçado se tratasse, assim como da aridez de uma lágrima cativa que forçosamente teima não ser vertida, sob pena de exteriorização da fraqueza intrinsecamente perceptível, ao revelar o derrame sarado das fendas golpeadas, provocadas pelo trago amargo, pelo dissabor que apraz experimentar um devaneio apetecível.
Tais efeitos nefastos correspondem somente ao germinar corrosivo de um cultivo oco, num espaço onde a erosão devastou todo um ciclo reprodutor, ficando este estéril, reduzido a instantes intermináveis de demência, de inquietantes irracionalidades, devaneios, eloquências.
Um espaço oco, profundamente oco, no qual se ausculta uma ressonância estridente e de maneira ensurdecedora. O eco da minha atroz consciência, a fúria maquinal da razão, a qual tende a despertar única e tardiamente com o ferroar de umas unhas afiadas num corpo anestesiado, com as sucessivas atordoantes e penosas dores letais inferidas no músculo cerebral que se encontra obstruído pela cegueira da fadiga e da preguiça, típicas de um deleite ilusório, de um instinto predador, animalesco.
Já nem respeito tenho por mim própria, já não mereço aquilo que em tempos fui, a pessoa em que me tornei, a menina e mulher pela qual lutei. Desfigurei todo o esforço e confiança que nela havia depositado. Descaracterizei-a. Estou a matá-la aos poucos, ao envolvê-la naquele vazio que me entorpece os sentidos e que simultaneamente me encaminha ao asfalto.
Perdi-me num enredo fúnebre, cujas cinzas abreviaram a mera e ímpia insignificância da minha existência. Deixei-me órfã, frágil, desprovida de lucidez. Pobre alma que aclama amparo, aconchego e o alento de se deixar cair ligeiramente na clemência e acalento daquela estrutura físico – psíquica que a cativara, e que dela fizera sua cativa.
Talvez nunca me absolverei das desilusões que advenham de uma mente em estado vegetativo. Encarregar-me-ei de carregar para todo o sempre a cruz de ter antecipado cruelmente o óbito daquela menina.
Limito-me a deixar-me viver com o fardo de a ter deixado morrer precocemente.
Eis o desalento da sobriedade.
Um comentário:
Deixas-me sempre sem palavras, seca, lânguida. Incrível a moldura sobre a qual tu te exprimes.
Sei e percebo esta tua faceta mórbida, sorumbática, desfalecida. Sei e percebo-a porque todo o mundo a tem! Afinal de contas QUEM (?) é o arrogante que na nossa idade, sabe quem é (?), sabe o que é a vida (?), sabe o que será (?)... ninguém. Andamos por aí, ao sabor do vento, nadando s à deriva nos calores da vida, deixando-nos levar pelas tentações, encontrando-nos depois com as fatalidades consequenciais. É natural, bem o sei, que sejamos os primeiros na crítica própria, na rasura das acções e no “inquisicionamento” dos estúpidos porquês. Sei que nunca pensámos ser quem somos, que o resultado pode não ser o querido, mas bolas, pelo menos estamos cá, ainda aptos para mudar as coisas. E tu Primavera e Verão (bagh, que coisa mais pirosa :P) serás a primeira que, sem hesitar, encontrará o seu rumo... sim, tu e essa singularidade única, moderação controlada e inquieta certeza que levar-te-á até às tuas pretensões.
Fogo, é que nunca conheci ninguém que conseguisse lutar tanto contra si própria, contra a preguiça que dizes ter, contra o cansaço que lhe diz atormentar todas as noites e que, ainda assim, ergue espada e escudo e olha em frente. Sim, incendeia essa mente determinada, labareda viva, que a faz ultrapassar todos estes desgostos pessoais que em dias de sufoco académico a levam a escrever estas barbaridades (:P).
Há-de chegar o dia em que verei outra coisa aqui... e esse dia há-de chegar para mim e para ti!
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