31 outubro 2006

Completamente só...


É aquele o meu esconderijo, o lugar perfeito para me desinibir de todos os entraves que faço questão de colocar todos os dias, na minha vida. Ali, aquela leve brisa é capaz de me tocar, mesmo que seja ao de leve, eu consigo senti-la. Ali, quem sou eu? Numa profunda introspecção do meu ser, sou apanhada e levada por sentimentos bons e maus, de tamanha dimensão, que outrora não conseguiam alcançar o meu coração frio, diria melhor, gelado, servindo de uma camada, não o suficientemente espessa, para cobrir as azáfamas da monotonia do dia a dia. E foi lá, que eu senti os mais estranhos pressentimentos, aqueles que corroem até ao fim, sem restar simplesmente nada. Vi aquela água tão clara, límpida, transparente e indolor, que depressa se tornou estranhamente escura, suja, com um cheiro desagradável a barro, causado pelas inúmeras tempestades. Aquela água que escorria, deslizando ao mesmo tempo que limpava a sujidade que por ali se fixou; mas não conseguindo limpar a tristeza da perda, a tristeza da incapacidade, que residia nos olhos dela. Sob o efeito de pressão a que aquele local nos obriga, vi ali exposto um turbilhão de sentimentos e de pensamentos que se apoderavam do meu corpo, frágil e da minha consciência estagnada. Eis que surgiu aquela afirmação, que num momento de maior sobriedade e noutro local, eu diria mesmo, que era a afirmação mais esquisita que ouvira. ‘’Aquela pedra castanha é bonita’’. Num local onde a melancolia está presente em todos os recantos, onde tudo transmite um significado atordoador de paz em conjunto com a insignificância e tristeza, ali eu percebi. Se ‘’em terra’’ não conseguimos tornar-nos iguais, ali, tudo é igual, todos somos iguais uns aos outros, Ali, pois, não há diferenças, obtemos todos o mesmo significado. E forçosamente vi-me obrigada a contrapor aquela afirmação, numa frase breve, curta, mas compreensível, disse: ''Aqui nada é bonito''. O silêncio fixou-se no ar. E então, dei razão a mim mesma, ali é tudo tão igual, o bonito é algo que não paira naquele sítio, ali tudo é horrivel.
Diria então, que a minha ingenuidade foi posta, mais uma vez, à prova, e mesmo assim, não consegui livrar-me dela, ela acompanha-me para onde quer que eu vá. Medo, talvez de querer acreditar que tudo é tão delinear como dizem.
No passado, ainda recordo os mesmos desenhos, representando os mesmos sonhos e desejos, a mesma fragilidade e inocência; aqueles desenhos com um monte verdejante, cheio de flores, uma casa com uma chaminé a fumegar, duas árvores, as nuvens e o sol sorridente e radioso; eu, os meus pais e o meu irmão, todos sorridentes e de mão dada.
Sim, agora acredito, é lá que eu permaneço com os pés bem assentes na terra, e involuntariamente, como se de uma força superior se tratasse, reconheço a minha miragem feita pelo reflexo da lua na água clara, ali, visiono pormenorizadamente todos os traços da minha sombra, e sem querer vou-me reconhecendo. Ali sei quem realmente sou.
Sou aquela menina que, se dantes fazia parte daqueles desenhos, hoje, vê-se completamente sozinha neles, Os desenhos não mudaram, quem mudou fui eu, a realidade que me rodeia obriga-me a abstrair-me da fantasia. A fantasia que eu própria afastei de mim, a fantasia que me obrigou a conviver com a obscuridade do vazio, sem sentimentos.

Completamente sozinha.

18 outubro 2006

Inevitável...


Apagas os passos que vou dando em frente e fazes-me recuar; dás ordens ás nuvens que cubram a única luz que me resta, a luz dos astros. A única razão pela qual ainda sou tua refém prende-se pelo motivo de tu teres aprisionado a minha alma, tiraste-me a razão de viver, o sentido à vida. De momento caminho em sítios, onde a estranha melancolia reina, e de rompante ponho-me a espreitar em todas as esquinas que vou encontrando, na solene esperança de encontrar um rumo; um rumo que me encaminhe, um rumo que tenha luz, que não haja nada que a faça apagar. Parei numa poça de água, feita pela chuva, nela consigo ver o meu reflexo, nada o pode diluir a não ser o calor do sol; nela revejo quem eu sou e com ela ajudo a combater a minha incapacidade de reagir.
E agora que tudo se apagou, e agora que as únicas saídas que tinha estão obstruídas pela minha mente auto destrutiva. Saio de levezinho sem ninguém se dar conta, luto contra o único tempo que me resta, e depois, simplesmente, paro. E agora sim, arrasto-me contigo, deixo-me ser levada pela tempestade de vento, e enquanto a ventania me envolve, tento recordar-me de momentos passados.
Inútil. Apagou-se tudo, congelaste a restante parte de mim. Apareces inoportunamente, és imprevisível, mas neste momento já não me consegues surpreender; passo demasiadamente tempo à tua espera. Roubas cada segundo do meu tempo, e fazes-me desperdiçar cada milésimo de segundo da minha vida. Vida? A que tu levaste contigo e que nunca mais me devolveste?

Devolve-ma…
Apagaste-me tudo…
E a esse tudo, vou-me juntar, em dentro de poucos instantes…
Falta pouco para eu me apagar também…
Leva-me contigo de uma vez por todas,
no lugar onde me deixaste perdida, não me consigo encontrar,
já não estou aqui a fazer nada…
O meu pensamento dissolveu-se na densa atmosfera…
Os meus sentimentos, esses? Fazem parte da enorme complexidade da noite, e por lá, encontram-se dispersos, encontram-se tal como eu,
Sozinha, a vaguear…
Á espera…
E assim, vou passando os restantes dias,
Á espera…

Vejo, apenas aquilo que ainda não me levaste,
a minha sombra...

10 outubro 2006

Encurralada...

Sinto uma tristeza
Sem fim
Dentro de mim
O meu coração
Bate como um relógio
Sinto um calafrio
Dentro de meu ser
Esta dor é tão forte
Que quase me derruba
A minha mente
Desapareceu no infinito
Não sei explicar
Este vazio dentro
Do meu corpo
Gostava de ser uma semente
Para ser transportada pelo vento
Gostava de soltar a minha mente
E deixa-la à deriva por um momento
Sem parte definida
Sem local de chegada
Sem destino premeditado
Queria voar, voar, voar,...
Queria sentir, sentir,...
Queria apanhar
Essa liberdade de viver
Ser livre no tempo
Soltar todo o meu ser
Libertar-me das amarras da vida
Ser livre de voar pelo mundo
Ai, como eu queria ser assim
Poder dar fim
A esta dor que queima
Dentro de mim.

By: someone

Debilitada vou percorrendo um dia de cada vez, a fraqueza permanece em todas as partes do meu corpo, Numa decomposição constante e quase que cíclica, movo-me nos permanentes bloqueios da minha mente. O meu olhar cabisbaixo, dissipa-se, enquanto tento desprezar, e ao mesmo tempo, acabando por aceitar, a minha morte lenta. O olhar atento fixado nos meus paços, o controlar da minha respiração e dos meus movimentos; o distorcer da minha voz, enquanto me roubas a visão, e eu ali quieta na expectativa, tento lutar contra a cegueira. Tu roubaste-me a alma, apoderaste-te do meu pensamento, utilizando-o para coisas horríveis, e sabes? Graças a ti, já não sei nada, não sei o que estou aqui a fazer. O teu objectivo é recrutares-me, para junto de ti, conseguires fazer de mim a tua boneca de trapos, querendo manipulares-me, para contigo, ‘’acabar’’ com a vida de mais inocentes.
Isso pensava eu, e agora, num momento de sobriedade, caí em mim.
Sim, tu queres algo que estás a conseguir; queres assistir à minha deterioração; invisível a nível físico, mas claramente visível no meu estado de reacção.

Sabes que não estou a sofrer, porque tens a consciência que me tiraste todos os sentimentos; e com vontade ou sem vontade, não te apoderaste das únicas ‘’expressões’’ que ainda me restam, que uso para te fazer frente; o meu sorriso, a minha escrita; e acredita, através dela consigo enfrentar-te, não sabendo explicar bem ao certo o que tu és, mas sim, o efeito que provocas em mim.

Inocentemente ainda acredito que te vais fartar, que um dia vais dizer basta!, assim como eu o disse inúmeras vezes…
Se esse tal dia não acontecer, eu sei muito bem o fim que me espera,
Perdida, inconsciente, fraca,
Á espera que a alma que me roubaste
Encontre o meu corpo caído e inacabado,
Esquecido e apagado pelo tempo.

06 outubro 2006

Visita Nocturna...


Incontáveis são as estrelas que, durante a noite, me ocupam o tempo; contando-as, uma a uma, sem saber distinguir qual delas a que me transmite mais energia. Devido à sua beleza, atenta fico a olha-las, ao mesmo tempo que aquele instante me consome. Aqui, sei que nada me é capaz de alcançar, e com o céu estrelado, partilho momentos da minha insignificante existência.
Inesperadamente, sinto uma aragem gelada a inundar a atmosfera. O cheiro do ar altera-se numa rapidez estonteante, o coração palpita, e nesse momento, congelo todos os meus íntimos e sofredores sentimentos. Não vais usá-los para me destruíres, desta vez não, desta vez, serei mais forte que tu. Petrificada, interrogo-me novamente: Estás mesmo aí?
Enquanto o meu olhar desinibido, percorre o teu espectro na vasta imensidão da noite, chego à conclusão, daquilo que eu mesma estava à espera, Não consigo enfrentar-te, tu aproveitas-te da minha fraqueza, e acabas sempre por me apanhar.
Tens a capacidade de me fazer parar, e de extinguir os meus sonhos que outrora, eram uns sonhos de menina, tudo isto num ápice reluzente, mas tão invisível.
A tua presença já não me surpreende, Sabes? Habituei-me a ela, por mais horrível que ela seja, por isso, Não te peço para me deixares em paz, nem muito menos, para te ires embora, peço-te apenas, para me deixares fazer o que me tens impedido este tempo todo, Deixa-me viver, quero apenas sentir o toque do frágil intocável, quero-me sentir viva.
E só desta forma consigo divulgar as palavras que me roubas.

Não congeles os poucos sentimentos e memórias que guardo dentro de mim….
A tua presença torna-me vazia; a tua ausência assusta-me…
E então, continuo..
Respiro ofegante, a soluçar de medo e olho, à tua espera.

Sinto-me como aquela árvore, tão sozinha no meu da complexidade da noite,

Sinto-me a tua presa.

05 outubro 2006

Imprevisível...


Chega! Disse baixinho para mim. Quero sair deste beco sem saída, deste beco que me encurrala a vida. Viro-me e encontro outros entraves que me impedem de prosseguir. De repente, apercebo-me. Estou num labirinto. Farta de andar à roda e ir parar ao mesmo sítio, ando enleada, ás voltas, e cada vez me enleio mais. Sei que ninguém me pôs aqui, eu mesma criei esta situação. Quis combatê-la e depois desisti, fiquei parada, e agora é tarde de mais. Ando ás voltas, involuntariamente, percorro aquele a que eu chamo de o meu pensamento, recheado de insanidade, talvez, o pensamento que me prende, o pensamento que eu agarrei e que a todo o custo, não irei largá-lo. Embora queira libertar-me, não consigo, é inútil, tenho sempre ‘’aquele’’ algo que me bloqueia, e dentro de mim ouço apenas aquele Chiu. E silenciosamente, sem qualquer capacidade de reacção, calo-me. Os meus cabelos ficam enrolados, entrelaçados pelo vento, enquanto admiro, no meu mais profundo silêncio, a voz, a luminosidade da Lua. A sua beleza não é suficiente para poder apagar as marcas que eu tenho, feitas por ti, contudo, perco-me e consigo ir até onde o meu pensamento nunca me levou. Sentada, no parapeito da imaginação, a debater-me sobre a acumulação de recordações e sentimentos residentes em mim, fico alheia ao que me fez calar, e assim, fico calada para sempre, e assim, vou vivendo. Sentindo-me mais morta do que viva, assim vou ficando, assim permaneço, à espera que a voz volte, à espera que o silêncio ma roube, outra vez. Empurra-me, dá-me aquele impulso, que há tanto esperas por me dar; Eu juro que não vou sentir nada, juro que não me vou arrepender, e quando me vires inacabada, totalmente imóvel, incontrolavelmente calada para sempre; Nunca mais te atormento, e tu, nunca mais me atormentas, a mim.